Sábado, 22 de Novembro de 2008
Henrique Estevão no

 

 com "Loucos por Mary"
A minha primeira escola oficial foi a
Primária do Bairro dos Pescadores em
Olhão. Tinha quatro salas. Duas para
meninas e uma para meninos. Ainda
não havia turmas mistas. O recreio era
separado por um muro com a altura de
30 cm. Lanchávamos e almoçávamos na
escola, em horários separados. Ao fi m da
manhã era café com leite e uma fatia de
pão com banha, seguida da detestável e
horrenda colher de óleo de fígado-de-bacalhau. O almoço
era, e sempre, sopa. Menos à quinta em que nos davam um
prato especial: sopa de bacalhau. Eu até gostava das sopas
de grão e feijão, mas a de bacalhau fugia dela como o diabo
foge da cruz. Nesse dia nunca comia e, para meu castigo,
fi cava a arrotar toda a tarde a óleo de fígado de bacalhau.
Só esquecia o arroto quando começava o ditado. Tinha um
professor que se chamava Cruz que me fazia carregar a
minha. Eu dava poucos erros nos ditados, mas havia uma
palavra que me “delatava” sempre: “muinto”. Assim mesmo
com o “n” a seguir ao “i”. Por causa dela, e por muito que
me lembrasse como a escrever, muita reguada apanhei meu
Deus. Cheguei a pensar que o professor Cruz era um sádico e
só escolhia textos para os ditados com essa maldita palavra.
Só para me lixar. Eu já nem sabia quem era pior: se o Cruz se
o óleo de fígado de bacalhau. Felizmente ainda mexo bem
os dedos das mãos.
Voltando à realidade. Era Guterres o nosso primeiro quando
vi o fi lme: “Doidos por Mary”. Era a história de uns tipos
perdidos por uma miúda linda de morrer. Ri que nem um
perdido quando o vi numa das salas do Monumental em
Lisboa. Recordo ainda a cena do “gel” e do “fecho-éclair”.
Curiosamente, os dois últimos primeiros-ministros socialistas
em Portugal – Guterres e Sócrates – trouxeram-me à
memória este fi lme e o meu antigo professor da primária.
Não por ambos estarem caídos por uma miúda chamada
“Educação”, mas porque se não se põem a pau ainda fi cam
encravados no seu próprio e maldito fecho-éclair. Não pelas
“reguadas que tenho apanhado” em matéria de impostos
nos últimos tempos, mas sim pelo seu amor e dedicação à
escola. Guterres fez mesmo disso o seu cavalo de batalha: A
“Educação”. Viu-se como acabou. Sozinho, abandonado no
“limbo”. O Sócrates teima, mas isso é lá com ele, em construir
uma escola à sua medida cheia de “choques tecnológicos”,
“Magalhães” e outras coisas que tais. Se houve coisa que
aprendi com o meu professor Cruz foi que, as reguadas doem
como um raio, mas também que as escolas são feitas de e
para pessoas. Por mais “choques e tecnologias”, “Magalhães”
e “Marias de Lurdes Rodrigues” que nos tentem impor não
esqueçam que as escolas são o baluarte das nações juntamente
com a sua história e cultura. Não sei se os actuais
responsáveis pelo ensino neste país sabem que o termo
escola deriva da palavra grega scholé, que signifi ca lugar
do ócio. Na antiga Grécia as escolas eram onde as pessoas
se reuniam para pensar e refl ectir. Daí eu ainda me lembrar
da minha velha escola e do prazer que me dava ir para ela
todos os dias. Talvez não fi zesse mal a alguns políticos lá
voltarem. Mais não fosse para, num momento de ócio, refl
ectir. Fazia-lhes bem. Estas últimas semanas foram pródigas em manifestações
de formadores e formandos, cada quais com as suas revindicações.
Não posso deixar de analisar alguns pontos
que me parecem essenciais, uns positivos, mas outros também negativos. Positivo os professores conseguirem
passar a imagem de que se encontram unidos e em bloco
contra políticas que só o Governo não percebe que são
incorrectas. Negativo a forma como os alunos encetaram
a sua luta contra o, também errado, “estatuto do aluno”,
como a ministra reconheceu ao recuar na sua aplicação
esta semana. Neste último caso confesso que achei
lamentável a forma como os alunos se manifestaram
ao arremessarem ovos, tomates e até batatas contra a
ministra e secretários de Estado. Não que eles não o
mereçam, mas porque em democracia e, se a queremos
defender e não ser prepotentes como os outros, não o
devemos fazer. Achei também lamentável a forma como
foi organizada a manifestação de alunos em Olhão, por no
largo da Igreja Matriz terem cobardemente atacado um
“tapume de obras” a pontapé enquanto passava ao ponto
de o fazer cair. Boa educação nunca fez mal a ninguém,
não culpem agora os tapumes.
Para acabar convém lembrar que a “educação de um
povo” não se faz com “quezílias tais vizinhas” e “carasde-
pau”. Não se faz com “o quero-posso-e-mando”. A
educação é feita como um todo e em sintonia: de pai
para fi lho, de professor para aluno, da sociedade para o
cidadão, do político para o eleitor. Todos somos elementos
activos na “educação” que queremos para Portugal.
Desde os pais que devem servir como “bom” exemplo e
apoio para os seus fi lhos; aos professores abnegados que
nos devem o conhecimento; aos políticos que deveriam
era zelar por valores éticos da sociedade, todos deveriam
parar para pensar e, desculpem o termo, deixarem-se
de “merdisses” e fazer com que este país ande para a
frente.
Viva o Sócrates e mais a tia Manuela. Viva o PS e demais
Partidos. Viva o Magalhães e a Escola. Ops... disse Magalhães?
Querem lá ver que por não lhe terem dado o
Magalhães o fi scal da Câmara não tem maneira de monitorizar
os sacos de lixo abandonados na rua. Na volta
ainda tem razão e recebe um pelo Natal.

 

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