Sábado, 6 de Dezembro de 2008
Henrique Estevão no

 

 
Viva o mestre Balé
 
Viva o Sócrates
Olhão mudou muito. Mudou Olhão, mudou Portugal. Antigamente as portas das casas tinham fechadura, não com medo que alguém as abrisse, mas para que as correntes de ar não as escancarassem. Só ficavam fechadas com o trinco. Fazia-se um buraco na porta, passava-se um cordel, prendia-se nele o trinco e toda a gente entrava. Entravam as vizinhas quando precisavam de ovos, batatas ou açúcar, os putos quando precisavam da bola e eu quando chegava da escola. Puxava o fio, abria a porta, depositava a mala em cima da mesa e ia jogar á bola. Infelizmente mudou tudo. Mudou o mundo, mudaram as pessoas.
Conheci o mestre Balé quando eu tinha vinte anos e ele já ultrapassava largamente os sessenta. Era mestre e dono da traineira “Estrela do Sul”. Reformou-se passado pouco tempo. Recordo que andava sempre com um sorriso quer a pesca tivesse sido boa ou fraca. Ele era assim. Um dia no mar do sul as ondas batiam forte e feio. O luar desenhava na areia fios de prata molhada. O vento soprava rijo de sueste - estava levante. Quando está levante, em Olhão, ouve-se o barulho das ondas em terra ecoando para lá do escuro que a vista alcança. Lembro-me do mestre Balé sempre que está temporal. Como era mestre e dono do seu barco, quando o tempo estava mau, fundeava no “lavaje” dos Hangares e aguardava: “Se dava para sair? Dava! Se não dava, não saia e regressava!”. Poupava no gasóleo - naquele tempo barato - e ainda sobejava tempo para uma partida de cartas. Foi com ele que aprendi a jogar o “crapô”.
Mas numa certa manhã as gaivotas calaram-se. No momento não se percebeu o porquê, mas nada de bom agoiravam. Estava sueste fraco. A “Estrela do Sul” entrava no porto, sem pesca e sem o mestre Balé, que estava hospitalizado. Nesse dia o tempo pareceu parar por momentos e ficou carregado de nada, até que surgiu o Calhabana e disse: “Sabem quem morreu? O mestre Balé!”. Depois desse dia a lota nunca mais foi a mesma. Não havia mais mestre Balé. Para ele os dias não eram só dias. Eram muitas outras coisas - umas boas, outras más. Era assim que ele vivia a vida de pescador – um dia de cada vez - era assim que ele se sentia gente. Dizem que morreu como viveu: com um sorriso nos lábios. Talvez a pensar na próxima jogada do “crapô”. Ainda hoje no “lavaje” enquanto as traineiras esperam que o tempo mude para se fazerem à barra e, se olharmos para cima, das nuvens surgem gaivotas que parecem sorrir como o mestre Balé e – dizem os pescadores – de vez em quando cai uma carta do céu. Será um “Ás de Copas”?
Esta semana lembrei-me desta história por causa dos acontecimentos na Índia. A batalha de Bombaim acabou com cerca de 200 mortos só porque alguns extremismos não conseguiram “vender o seu peixe”. Aqui também existem outros extremos. Os ricos cada vez mais ricos. Os pobres cada vez mais pobres. Muita vez não de dinheiro mas de saber. Não falo de literacia, porque isso interessa a governantes e políticos, falo de “pobreza social e moral”, falta de valores mínimos. Os tempos poderão ter mudado (tanto lá como cá) mas será que o valor da vida humana sobe e desce como se de simples aplicação bolsista se tratasse? Devíamos meditar um pouco sobre o assunto. Não só os países pobres, mas também os países ricos. Não esqueçam que há muito mais tempo de antena nos noticiários para o Ronaldo, quando muda de namorada, do que para os milhões de crianças que morrem de fome em África. Mudou o tempo para quem o faz ouvir, mas também para quem o ouve e vive não esquecer. Afinal para que existem pessoas como o “Mestre Balé”?
Viva o PS e demais partidos! Viva o Sócrates e a tia Manuela! Viva o mestre Balé... Ops, por isso dizem que o mestre Balé - lá onde quer que esteja - só perde o sorriso quando vê os sacos de lixo abandonados nas ruas de Olhão. Será por isso que o Fiscal da Câmara não sabe jogar “crapô”? Santa paciência!
 
PS: Com o frio que faz o Leal (Presidente) ainda vai ter de distribuir cachecóis às crianças da “Escola do Futebol”.

 

Também pode ler este artigo aqui

e pode deixar o seu comentário



mano zé às 07:45
link do post | comentar

acompanhe a
blogosfera olhanense actualizada a cada meia hora

 

     aqui

visitantes desde 26/12/2008

arquivos

Fevereiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

subscrever feeds