Sábado, 20 de Dezembro de 2008
Henrique Estevão no

 

Viva o pacote
Viva o Sócrates
Quando era puto eu ia fazer as compras ao Espanha. (Tem graça. Hoje as pessoas vão fazer compras a Espanha porque é mais barato.) Espanha, era o nome do dono da mercearia onde fazia as compras para casa. Se houvesse ASAE naquele tempo não havia a mercearia do Espanha. Era uma típica casa algarvia com o correspondente pátio frontal. Num anexo, mesmo colado à casa ficava a vacaria onde comprávamos o leite morno mesmo acabadinho de sair da teta da vaca. Na área do pátio e à esquerda ficava a tasca. Era a zona social – o café. O vinho saia da pipa e era comprado em garrafões de cinco litros (de vidro e forrados a palha) ou em garrafas de litro, em “bombas” - uma garrafa de cerveja cheia até ao gargalo – e servido nos conhecidos “copos de três”. O pátio, quando tempo estava bom, era a zona de convívio e lazer, como existem hoje nas esplanadas do “Colombo” em Lisboa. Havia mesas de madeira quadradas e os indispensáveis “bancos de tasca” com um furo no meio, que tinham duas vantagens: meter o dedo para transportar e servir de “tubo de escape” quando alguém se descuidava. Os homens passavam lá as tardes a jogar às cartas e ás damas. Num dos cantos lá estava o bidão de petróleo para abastecer candeeiros e fogões. Costumava pedir ao Espanha para me deixar ser eu a encher o garrafão de cinco litros utilizando a bomba manual. À esquerda ficava a zona comercial propriamente dita: a mercearia. Vendia-se de tudo um pouco. Do bacalhau ao açúcar amarelo, passando pelo grão e feijão de todas as cores e mais as massas. As bolachas estavam em latas cilíndricas vermelhas e eram vendidas á unidade. Mas havia muito mais. Piões de madeira, cromos da bola e fio de guita para lançar papagaios feitos em papel de seda que ele também vendia. Comprava-se pouco porque o dinheiro era ainda menos. Eram 250 de café, ¼ de açúcar amarelo (o branco só em ocasiões especiais), mais uma medida pequena de madeira de feijão ou grão e já estava por hoje. Só tinha um defeito. Não vendia pão e tínhamos de o ir comprar depois à padaria do Ramos, que por acaso era marreco. Não havia sacos de plástico. Utilizavam-se pacotes de papel. Quando estava de bom humor, o Espanha, depois de aviar as parcas doses às velhas e anotar no “livro de Fiados” com um sorriso matreiro dizia: “Vizinha. Tem vasilha ou leva no pacote?”
Por falar em pacotes o nosso novo merceeiro (Ops... desculpem) o nosso primeiro Sócrates anunciou com pompa e circunstancia, marketing e elegância o lançamento de mais um pacote de 2180 milhões de euros para fazer face à crise. Vão ser canalizados para remodelação de escolas, combate ao desemprego (embora ele prefira usar a palavra emprego) e para empresas em dificuldade. Espero que o plano resulte na prática. Que não apareçam mais alguns, e nem quero pensar que sejam políticos no desemprego, que o façam fracassar em benefício interesses próprios. Escrevo isto porque já começam a chegar alguns maus sinais. Os bancos já receberam o seu próprio pacote para fazer face à crise, mais o pacote para agora anunciado, mas segundo os representantes das PMES, embora os bancos já disponham do dinheiro com aval do estado para as novas linhas de crédito, continuam a dificultar a obtenção do mesmo por parte das empresas. Alguns conceituados economistas da nossa praça têm vindo a publico e levantam muitas dúvidas relativamente a algumas medidas apresentadas. Era bom que o governo, ao invés que tem feito com os professores e agora segundo parece querer fazer com os médicos, metesse a bem de todos nós a intransigência e prepotência na gaveta e, com todos estudar aplicar de forma correcta e eficaz as medidas necessárias para ultrapassar a “crise rosa” que se avizinha para 2009. Digo “rosa” porque no discurso do governo o futuro próximo é apresentado (segundo quem fala) umas vezes negro, outras vezes demasiado colorido. Esperemos que quem controlar a distribuição dos dinheiros públicos, não faça como o Espanha, mas sem o seu ar engraçado e pergunte: “Quer levar o dinheiro num saco ou leva no pacote?”
Viva o PS e demais partidos! Viva o Sócrates e a tia Manuela! Viva o pacote... Ops, por falar em pacotes. Só espero que depois das crónicas deste ano o Fiscal do Lixo da Câmara não me mande também levar o lixo no pacote.
Henrique Estevão

 
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